domingo, 5 de fevereiro de 2012

EU E A CULTURA
Hoje compra-se a cultura sem a digerir,
Tudo se sabe sem nada se saber.
Vem caprichosamente empacotada a pedir
Consumo imediato e com formatos para lamber.
Saboreia-se num instante e no outro o esquecimento
Adiando o (outrora idolatrado) amadurecimento.

Politicamente correcto e demasiado pusilânime
Põem-se de lado a ventura do Eu unânime
E desdobram-se as facetas personalíticas
Que se auto regulam entre as antimefíticas
Condutas e as atractivas franjas da anarquia.
Abafa-se o Eu alcoólico e reacende-se o da etnarquia,
Afaga-se o da diligência e suprime-se o da preguiça,
Arredonda-se o da borga e eleva-se o da disciplina Suíça
E exacerba-se o individual que escarnece do colectivo.
Os genes (esse depósito fulcral) não caem no respectivo
Logro e mantêm-se firmes com tanta provocação
Transmitindo a singular unidade à próxima geração

Que retoma o ciclo e se sofistica
Fraudulentamente adulterando com subtileza
A carga virgem e marcadamente apofântica.
Desta curiosa batalha não fica ilesa
A alma que se vai desforrando ao germinar
A doença no corpo estafado e pronto a minar.

Francisco da Renda
 

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