sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Terras do fim do Mundo,

São terras do fim do mundo,
Assim lhe chamaram outrora,
A esta terra de Angola,
Do Cuando Cubango,
Onde cedo nasce a Aurora,
Rompe a madrugada,
Se põe o sol acobreado.
Nesta terra virada a sul,
Na fronteira,
Entre os que estão do lado de cá,
E os que vivem do lado de lá,
Serpa Pinto,
Menongue,
Tanto faz,
São terras da África profunda,
Tão profunda, como profundas,
São as raízes da terra,
Das árvores frondosas que se entranham,
Embrenham no chão avermelhado,
Atapetado de capim.
De verde se veste a paisagem,
A perder de vista,
Na fugacidade do tempo.
De um tempo em que o tempo é de paz,
De silêncio,
De muitos silêncios,
Como de silêncio é feito o canto do Colibri,
Ou o indelével toque do vento,
Ou do milho que baloiça na lavra a crescer,
Ou da vegetação verde que persiste,
Ou da pedra que faz o chão de quem resiste,
Ou da montanha que se eleva,
Para lá do azul do céu que a assiste ,
Se ouve o silêncio,
Do rio ladeado de lavadeiras,
Mulheres negras altruístas,
Feiticeiras que trazem nos olhos,
O brilho do feitiço,
Dos meninos dos musseques,
Que brincam no asfalto,
Com carrinhos de lata,
Jogam com uma bola de trapo,
Das meninas que à sombra do imbondeiro,
Fazem tranças no cabelo,
Acrescentam pedaços de postiço.
Da gente que bate o milho no pirão,
Faz a fuba faz o pão,
Ou ainda na berma da estrada onde habita,
A vida numa casa de pau a pique,
Tudo perdura,
Tudo resiste
Tudo é vida,
Nestas terras do fim do mundo,
Em silêncio.

M.J.Meira
 

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