Quando
parece que os dias são lentos, cola-se-me à pele um trapo de domingo
lavado, da forma como o que é lavado merece: com deleite dulcificado e
sem nódoa! Desprenda-se em suspiro a ânsia do dia claro, solto e
despretensioso. Vou andar por aí sem que a mácula da finda semana se
me imprima às pernas… leve, tão leve como fumo branco que se junte às
nuvens.
Ao entardecer, o homem de longas barbas brancas aproximou-se do casulo e murmurou: "as borboletas apenas têm de cumprir dois mandamentos: voar durante o dia e sonhar durante as noites !"
e ficou calado, ali, olhando-me em silêncio.
Apenas assenti: "para mim é tudo quanto desejo: voar e sonhar ... que os ventos me sejam pacíficos !"
O homem parece ter compreendido. Afastou-se, levantou o bastão e desapareceu.
Acto contínuo, as minhas asas começaram a abrir-se ... *
António Cardoso Pinto
TOURO DE MORTE
Cego de medo e dor, ele nada vê. Confuso e humilhado, o bicho é cego...
Roubam-lhe a liberdade, o aconchego
De amar a vida sem saber porquê...
Corre o sangue no dorso. Já não é
Da natureza o seu desassossego...
Da vida que viveu com estranho apego
Pressente o culminar... [Olé,olé!]
O público, em histeria colectiva,
Estremece inebriado e grita: -Viva!
Mas é morte que quer e a morte vem...
Ajoelhou o touro e vai morrendo
E eu, que nada fiz mas compreendo,
Ajoelho com ele, morro também...
Olé...
Maria João Brito de Sousa
"Entrego-me"
A Ti que sopras suavemente sobre os campos de jóio, numa serenata de vagalumes sob a sombra cansada feita pedaços de sonho vivo... ...em Amor
E aos teus cabelos que perfumam, aos teus lábios que sorriem, aos teus olhos que dançam, e à vida que a tua brisa torna mais colorida, a Ti entrego-me...