Provei e misturei, a amora silvestre do nosso iogurte de pedaços. Um pedaço de mim, um pedaço de ti… Até ao batido final. Na certeza de transformar a silveira em roseira, deliciarmo-nos numa bebedeira, perfumada e louca, no contentamento das pétalas que não caem, mas rejuvenescem.
Jaime Portela
INQUIETUDES
Andam bocas pelo ar, esfomeadas de fama... Vozes escancaradas no ridículo que as inflama, mentes inquietas pela inveja corrompidas, passos incertos e atitudes pouco retas... Andam olhos cegos calcorreando a calçada, vazios de luz açoitando a palavra, alimentando os egos... Andam os ouvidos fechados! Nem dá para acreditar... Injúrias ...Inquietudes...tantas aí Jesus... Calei-vos... Ouvi! E vede! Parai...aprendei com o silêncio o ouro que se derrama pelas cascatas da sensatez. Bebei...e matai essa sede! Deixai que cresça viçosa e ereta a sábia planta da poesia em vós semeada!...
Isabel Branco
UM TEMPLO EM FORMA DE CORAÇÃO
Danças nos meus olhos o teu tempo E entregas-me o teu tempo num sorriso Abraçamos o brilho das estrelas Navegamos juntos no perfume das flores mais belas E há gaivotas felizes no mar que foi feito só para nós
Na pele do teu corpo desenho o futuro Nos sons cantados do vento escuto a tua serenidade Afago-te os dedos com a ternura que me deram ao nascer Imagino-te a meu lado no lado mais belo de um sonho qualquer E teço no tecido da existência a nossa própria felicidade
Somos capazes de ouvir o sol e de adormecer a lua Somos as letras de um vocábulo ainda por inventar Dos nossos beijos nascem crianças felizes dançando na rua Das nossas mãos sai um rio criado só para a nossa alegria E sempre que nos olhamos acontece magia
Sei que a morte existe e que a solidão acontece Sei que a tristeza é uma avó cruel que nas nossas madrugadas falece Mas sei que as árvores deste sonho acabaram de ser plantadas no nosso chão Agora podemos sorrir ao mundo que nos vê viver E neste tempo do amor já moramos num templo em forma de coração.
José Luís Cordeiro
Quero adormecer
Todos os segundos voaram de mim, deambulo por aí, como uma caix...a vazia, entregue ao sabor do tempo... Caminho nas entrelinhas das palavras por mim rasgadas. Até até já me esqueci de tudo o que foi errado!
Grito aos céus, quando vejo um arco-íris fabricado com as lágrimas de
um sonho errante...talvez, além das fronteiras do medo, exista um
milagre adormecido... Conheces o meu milagre? Não aquele transformado em tulipa negra! O outro, o que precisa do sonho para infinitamente me perder nas profundezas do meu pensamento...
Quero adormecer num sussurro de encanto saído das nuvens brancas que
quase me tocam o rosto, luminosas, qual castiçal da noite, numa valsa
tocada até ao amanhecer...com o som das águas do mar a tocar devagarinho
fazendo a lua dançar magia… Sonhei mais do que pude, talvez o que
não devia. Os caminhos foram trilhados e as marés fugidias...perduram
uns breves traços em cada meu respirar... Quero adormecer...